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Paixão por Lisboa

Espaço dedicado a memórias desta cidade

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Mudanças

"Quando as flores enfeitavam os jardins e as brisas suavizavam o ar, os inquilinos lisboetas saíam para, de nariz levantado e os olhos encobertos pelas palmas das mãos, bisbilhotarem as casas para alugar; quando os lindos entardeceres alfacinhas de Outono se enobreciam com os tons pálidos do sol poente, novamente os inquilinos lisboetas vinham para as ruas inquirir de novos poisos. E pelos fins de Maio e termos de Novembro, os senhorios lisboetas sorriam satisfeitos às suas casas outra vez arrendadas, com belos contratos já assinados. As mudanças faziam-se dentro de semanas, em padiolas levadas por galegos e carroças ou galeras conduzidas pelos rudes e, quantas vezes, cruéis carroceiros de então: que de mistérios levemente descobertos contavam esses transportes! Era a intimidade lareira exposta aos olhos inquiridores e às línguas maldizentes de vizinhos e conhecidos. E já então se faziam observações sobre feições típicas, que desapareceriam anos depois. Certa vez ouvi, numa conferência, o Dr. Ramada Curto declarar:
<<Sou do tempo em que era normal fazerem-se periôdicamente mudanças em Lisboa. Pois, senhores, era raro entre o mobiliário ver-se uma banheira!>>"
in Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", A. XXXIX-XL, n.º 119

Moços de fretes, galegos com padiola, 1908, foto

Moços de fretes, galegos com padiola, 1908, foto de Joshua Benoliel, in a.f. C.M.L.

Carroça de mudanças, 1907,.jpg

Carroça de mudanças, 1907, foto de Joshua Benoliel, in a.f. C.M.L.

Moços de fretes, galegos com padiola, 1908, foto

Moços de fretes, galegos com padiola, 1908, foto de Joshua Benoliel, in a.f. C.M.L.

Chafariz de El-Rei

"Segundo consta da <<Memória para a História das Inquisições de D. Afonso II>>* (doc. 2º, pág. 14), existia por volta de 1220, na Freguesia de S. João da Praça, um chafariz denominado <<Sancti Johanis>>, situado no interior da cerca moura. Júlio de Castilho admite que a denominação actual teria provindo do reinado de D. Dinis, pois teria sido este monarca a ordenar a sua transferência para a parte exterior da referida cerca. O nome de El-Rei teria subsistido em veneração à obra notável que o soberano empreendeu pelo engrandecimento do país.
Foi um manancial riquíssimo, no séc. XVI o chafariz abastecia todas as gentes do sítio com as suas seis bicas, ao qual posteriormente se acrescentaram mais três. Esta água além de abundante, dizia-se muito boa para a saúde, especialmente depois de algum tempo em casa.
Com efeito, apesar do seu manancial ser abundante, era também muito o número de quartas, bilhas e barris: mas vejamos o que nos diz o Padre Duarte Sande em 1584:
<<Ê (o mencionado chafariz) de boa construção, e todo de pedra mármore. De uma nascente próxima recebe as águas, que naquela cidade são abundantíssimas, e as lança por bocas muito espaçosas e bem trabalhadas, sendo tal a concorrência de servos e criados que a vão buscar, que até pela noite adiante ali estão em carreira esperando a sua vez>>.
Assim, em 1551, fez o senado publicar uma postura camarária, procurando disciplinar e reprimir os abusos que ali se verificavam.
A Postura, segundo Veloso de Andrade, dizia: <<Constando ao Senado que há homens brancos, negros que vão às bicas do chafariz de El-Rei a vender água a quem vai buscar, de que se seguem brigas, ferimentos, e mortos faz a sua postura para a repartição das ditas bicas pela maneira seguinte: na primeira bica indo da Ribeira para elas, encherão pretos-forros e captivos, e assim mulatos e indios e todos os mais captivos, que forem homems. Logo na segunda seguinte poderão encher os mouros das galés sómente a água que for necessária para as suas aguadas, e tendo cheio os seus barris, ficará a dita bica para os negros e mulatos conforme a declaração atráz. Na terceira e quarta, que são as duas do meio, encherão as mulheres pretas, mulatas, indias forras e captivas - e na derradeira bica da banda de Alfama encherão as mulheres e moças brancas, conforme a declaração das bicas, sob pena de quem o contrário fizer do que está dito, sendo pessoa branca e forra, assim homem como mulher, pagará dois mil reis de pena, ficando três dias na cadeia sem munissão; de que haverá metade da pena do dinheiro quem o acusar, e a outra metade para a cidade, - da mesma pena terão os ditos brancos, mulatos, indios e pretos-forros, que encherem por dinheiro, ou aclarando-se que enchão em qualquer outra das que se lhe nomeião, posto que corra a dita água no chão, e não poderão encher nas declaradas, e os negros e captivos e os mais escravos, que o contrário fizerem do que está dito, serão publicamente assoutados com pregão de redor do dito chafariz, conforme a provisão de El-Rei Nosso Senhor novamente passada, as quais penas se executaram três dias depois da publicação desta postura que se lhe dão para vir primeiro à noticia dos moradores desta cidade.>>"
in Lisboa: Revista Municipal N.º 17

Chafariz de El-Rei, foto de José Arthur Leitão B

Chafariz de El-Rei, foto de José Arthur Leitão Bárcia, in a.f. C.M.L.

A negro o troço da Cerca Moura, junto do Chafariz

A negro o troço da Cerca Moura, junto do Chafariz de El-Rei, segundo a reconstituição do Eng. Augusto Vieira da Silva.

Chafariz de El-Rei na planta de Lisboa de 1650, le

Chafariz de El-Rei na planta de Lisboa de 1650, levantada por João Nunes Tinoco.

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Cerca moura, torre do Chafariz d' el Rei, foto de André Salgado, in a.f. C.M.L.

Crianças e aguadeiros no chafariz d&#39; El Rei, 1907

Crianças e aguadeiros no chafariz d' El Rei, 1907, foto de Joshua Benoliel, in a.f. C.M.L.

Chafariz d&#39;El Rei, 1945, foto de Eduardo Portugal.

Chafariz d'El Rei, 1945, foto de Eduardo Portugal, in a.f. C.M.L

* Convirá esclarecer que se trata de inquirições e não das estruturas inquisitoriais! A fonte, incompletamente citada, será: RIBEIRO, João Pedro (1815), Memórias para a Historia das Inquirições dos primeiros Reinados de Portugal colligidas pelos discipulos da Aula de Diplomatica no anno de 1814 para 1815 debaixo da direcção dos Lentes Proprietário, e Substituto da mesma Aula [Org. por ...], Lisboa, Impressão Régia.
O meu Agradecimento a Joao de Figueiroa-Rego, pela rectificação, ao artigo original.

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